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Desafio de férias – verão 2019 – escrita

Naquela manhã de verão, Natsumi acordava meio indisposta… O calor daquele dia estava insuportável desde o nascer do Sol. Tinha que se levantar, antes que sua supervisora viesse gritar com ela. Ela se sentou, ergueu a cabeça com desleixo e finalmente abriu a janela. Pelo menos tenho a sorte de ter um quarto só pra mim. Pensou ela. Um vento forte e morno invadiu seu quarto, e a acordou de vez. Só mais um pouco e as coisas vão acabar, nada mais de corpos, nada mais de correria pelos corredores, nada mais de estar longe dele… Este último pensamento a colocou em alerta, precisava terminar todos os seus afazeres o mais rápido possível, a noite precisava estar livre para vê-lo.
Vestida para iniciar os trabalhos, Natsumi passou rapidamente pela copa, lotada como sempre, para pegar um pequeno bolinho de arroz e andou apressada em direção à UTI. Mais um dia de trabalho… Espero que pelo menos hoje ninguém morra, hoje tem que ser um dia diferente dos outros! Colocando seus equipamentos de segurança, luvas, touca e etc, entrou e andou entre os leitos. Apesar de ter aprendido às pressas os afazeres de uma enfermeira, Natsumi aprendeu bem como se fechava um corte, como se administrava os medicamentos, como se batalhava para não deixar mais um soldado perecer. Em questão de alguns meses, a guerra tinha conseguido mudar completamente sua vida. Ela poderia ter uma vida falsamente normal se tivesse decidido ir com os outros moradores, poderia ter fugido para uma cidade que não era militarizada. No entanto ela decidiu permanecer, era injusto que homens tão nobres morressem. Natsumi não sabia muito bem o que era uma guerra, mas tinha certeza que não queria ficar parada sabendo que existiam centenas de homens feridos necessitando de ajuda. Foi por isso que decidiu ser uma enfermeira voluntária. As enfermeiras mais velhas a desprezavam, olhavam pra ela como se fosse uma pirralha. Mas a senhora Tanaka, a enfermeira-chefe e a mais experiente da equipe gostava dela, e a ensinou tudo o que sabia sobre primeiros socorros e um pouco mais sobre enfermagem.
Os minutos e as horas se misturavam em meio a correria cotidiana. Não se sabia que horas eram, apenas que a cada momento mais e mais homens feridos eram trazidos à UTI. Natsumi trabalhou arduamente por tempos intermináveis, até seu corpo a alertar de que era hora de parar. Suas mãos tremiam anêmicas e fracas. Droga, esqueci de almoçar de novo! Por ser um “acidente” comum, quando foi comunicar a sua supervisora que precisava de uma pausa esta nem sequer olhou em seus olhos, apenas acenou com as mãos de forma fria.
Caminhando pelos corredores do hospital, Natsumi observa frustrada os rostos de mães e esposas em luto. Sentiu seus olhos marejarem, então fechou-os com força e apertou as passadas.
Finalmente chegara a copa. Ela pegou um pequeno copo descartável e tomou chá quente. O líquido flamejante relaxava seus músculos tensos, ela sentia seus pensamentos irem um a um ao vácuo. Quando se lembrou! Que horas são? Por sorte ainda eram 23:45. Tinha 15 minutos até o horário de seu encontro noturno.
Por sorte não tinha perdido a única chance naquele de mês de encontrá-lo.
Ela passou rapidamente em seu quarto, deu uma pequena escovada nos cabelos, e pulou as janelas que abrira ao amanhecer. Estava um pouco apreensiva, mas sabia que ficaria tudo bem no final.
Quando seu relógio de pulso marcou 00 horas, finalmente o viu. Emocionada, correu para abraçá-lo. Faziam semanas que não o via (antes da guerra começar o via sempre no colégio, mesmo que fosse 2 anos mais velho). Sem dizer uma palavra, os dois olhos se encontraram naquela madrugada abafada e de céu limpos. Como ainda era início de agosto, ainda era possível ver o rio de estrelas (aquele do conto da princesa, o qual é celebrado no festival de tanabata. A filha do senhor dos céus que deixou o pai tão furioso que seu castigo veio em forma de rio. Um rio que o pai criou para separar o céu em duas parte, a parte em que ela vivia e a outra, onde seu amado vivia. Mas tamanha era a sua tristeza que o pai concedeu um dia de folga no ano para que ela pudesse encontrar com o seu amor por uma ponte). Era como Natsumi e Yuki. Um jovem e uma donzela, que por questões da vida foram separados mas que tinham a permissão de se encontrarem de tempos em tempos. Mas no caso deles o motivo era menos “alto”. Natsumi era uma enfermeira e Yuki um soldado de baixo escalão. Nenhum dos dois tinha uma “folga”. Mas hoje era especial, era o aniversário de Natsumi. O abraço forte que Yuki deu a fez chorar. Lágrimas se atropelavam em seus pequenos olhos. Com o coração apertado, o jovem limpou o rosto da amada e lhe entregou um pequeno lenço com a constelação favorita dos dois. O coração de Natsumi se aqueceu com o presente amável e sorriu, como havia meses não sorria. Ele amava o sorriso dela. E sem que nenhum dos dois percebesse, os lábios se tocaram, os dois mundos que foram separados pela guerra se encontraram naquele momentos sublime. Nenhum deles sentira nada igual antes, e nenhum deles queria que esse momento acabasse…
E num instante tudo se foi ao som ensurdecedor das sirenes. Aquele era o alerta de ataques aéreos. Os dois pares de olhos que antes estavam sequestrados pela paixão agora tinham outra expressão. Com uma despedida apressada cada um foi para um lado. Mas antes que a vista ocultasse o contato visual entre eles, ambos moveram seus lábios para um último juramento.
“Vamos sair juntos dessa guerra”
Esta era a frase que Yuki dissera para Natsumi quando ele fora chamado para servir. E é a frase com a qual eles se despedem desde então.
A madrugada inteira foi de tensão, todo o corpo médico estava agitado transportando os feridos para abrigos. Natsumi não conseguia conter o aperto que sentia no coração. Queria poder estar nos braços de Yuki.
Um pouco antes das 8 horas, Yuki andava apressado pelo acampamento quando ouve um dos seus superiores dizer que provavelmente o ataque seria ali perto e tinha medo de que o hospital fosse atingido. Quando ouviu isso, Yuki correu como nunca antes em direção ao quarto de Natsumi. Para seu desespero ela não estava lá. (se passaram 5 minutos desde o início daquela busca) Ele não poderia ser visto, então tangenciou todo o edifício e nada de Natsumi… (mais 5 minutos se passaram desde o início daquela busca) Já desacreditado, Yuki não conseguia mais pensar em como encontrar a sua pequena. E no auge de seu desespero viu que Natsumi entrara em seu próprio quarto (ela havia derrubado o presente no quarto no meio daquela confusão). Com o coração desesperado Yuki invade o quarto e implora para que ela fuja com ele para um abrigo. Mas ela se nega. Não posso deixá-los aqui Yuki! Eu não fugi antes e não fugirei agora! Os olhos em lágrimas dos dois confirmavam o que havia em seus corações. Yuki abraçou forte sua amada. (passaram se os 5 últimos minutos de sua busca).
A bomba foi lançada e um clarão inundou a cidade de Hiroshima naquele dia 6 de agosto de 1945.

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Sobre Dory <3

Eu me denomino como Dory, uma pequena menina que é super mega atrapalhada e se distrai facilmente. MAS que o coração anseia por fazer amigos e o que é certo (ou pelo menos tentar). Sou cristã, estudante de Letras, pseudo piadista e humana.

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